Economia & Mercados
05/02/2021 16:30

Especial: Segunda onda de covid introduz risco de recessão técnica no Brasil no 1º semestre


Por Eduardo Laguna

São Paulo, 05/02/2021 - A nova onda de contaminações do coronavírus no País, que acontece em meio ao atraso e, agora, lento avanço do programa de vacinação, colocou no radar do mercado o risco, até então praticamente desprezado, de o Brasil voltar a passar por recessão técnica no primeiro semestre deste ano.

A possibilidade de dois trimestres seguidos de retração do Produto Interno Bruto (PIB), sequência que configura recessão técnica, vem sendo levantada em meio à rápida deterioração das previsões de analistas sobre a atividade econômica.

Já havia, desde o fim de 2020, certo consenso de que a economia sofreria uma queda nos primeiros três meses do ano por conta do fim do auxílio emergencial. Agora, porém, além de os prognósticos de contração do primeiro trimestre terem piorado, analistas de casas como o banco BNP Paribas e a consultoria MB Associados, além de economistas do Ibre/FGV, começaram a incorporar nos cenários mais prováveis a tendência de a atividade continuar perdendo ritmo nos três meses seguintes.

O grupo, embora minoritário, ganhou adeptos à medida que a estatística da covid-19 foi subindo para a casa dos mil óbitos diários, e o Brasil perdendo a corrida para outros países na imunização.

Também tem aumentado as instituições que pintam uma economia flertando com a estagnação na primeira metade do ano, ao combinar um trimestre de queda com outro de baixo crescimento. Dentro desse grupo estão bancos como Citi, Goldman Sachs, Fibra e Santander, assim como a consultoria Tendências.


Recessão à vista*
Instituição 1T21 2T21
BNP Paribas -0,5 -1
Ibre/FGV -0,5 -0,3
MB Associados -0,8 -0,3
Tendências 0,3 -0,1
Citi -0,5 0
Santander -0,4 0,1
Fibra -0,5 0,2
Goldman Sachs -0,1 0,4
Fonte: Instituições. *variação na margem (trimestre/trimestre anterior)

O aumento das contaminações, internações e mortes, que levou governos estaduais a retroceder na flexibilização das quarentenas, frustrou as expectativas de retirada mais rápida das restrições de enfrentamento à pandemia.

A leitura anterior era de que num contexto de maior controle da crise sanitária, dando respaldo à expansão de crédito, descompressão do mercado de trabalho e consumo de poupanças acumuladas no período de fechamento das atividades e isolamento social, o chamado fiscal cliff - como é conhecido o buraco de atividade aberto pelo fim de estímulos fiscais - estaria circunscrito ao primeiro trimestre.

Porém, o cenário de economia com circulação mais livre - ou seja, sem tantas amarras, ainda que sem voltar a uma normalidade completa - vai sendo empurrado para o segundo semestre, quando, conforme acreditam economistas, a vacinação já terá deslanchado e os grupos mais vulneráveis estarão vacinados, reduzindo assim a pressão sobre o sistema público de saúde.

"Estou otimista com as vacinas, e vejo chance de o programa de imunização acelerar ao longo do caminho, podendo ter impacto potencialmente explosivo lá na frente, já que mais vacinas estão surgindo. No começo, no entanto, a produção, aquisição de insumo, negociação política, é tudo mais lento e podemos entrar numa recessão leve", comenta Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, onde as previsões para o PIB do primeiro e segundo trimestre são de queda de 0,8% e 0,3%, respectivamente.

Como não há espaço no orçamento, e tampouco consenso político, a aposta no mercado é de que o relançamento do auxílio emergencial às famílias mais vulneráveis será apenas uma fração da transferência do ano passado - algo entre 10% e 20% da injeção próxima a R$ 300 bilhões do coronavoucher em 2020. Se for o caso, não reverteria, na avaliação de analistas, a tendência de desaceleração.

Até agora, o pessimismo dos economistas não chega ao ponto de contaminar a confiança do mercado em geral no crescimento de 3,5% do PIB no ano, porque, de outro lado, eles vêm calculando um efeito cada vez maior do carregamento estatístico vindo de 2020 - o chamado carry-over, que está hoje na casa de 2,7% a 3,2%. Em outras palavras, a arrancada após o choque da pandemia foi tão forte no segundo semestre de 2020 que a atividade cresceria dentro dessa faixa mesmo que a variação nos quatro trimestres deste ano fosse nula.

O efeito estatístico permite, assim, um resultado positivo mesmo se a economia não gerar novo crescimento ao longo do ano. Ao revisar de 5% para 3,3% a expectativa de crescimento econômico em 2021, o economista-chefe do banco Fibra, Cristiano Oliveira, chamou a atenção a esse fato. Em relatório divulgado na terça-feira, ele observa que se sua nova projeção for confirmada, o desempenho da economia brasileira será medíocre e significará, na prática, estagnação.

Tanto o Fibra quanto a consultoria Tendências aguardam crescimento em um dos resultados trimestrais do primeiro semestre, mas adiantam que as projeções positivas têm hoje viés de baixa. Podem, portanto, serem rebaixadas.

Há um mês, o BNP Paribas puxou a fila dos cenários de recessão técnica ao ver a evolução das contaminações acontecer em ritmo mais rápido do que as vacinações. A previsão do banco de origem francesa é de contração de 0,5% do PIB no primeiro trimestre, seguida por mais uma queda, de 1%, no segundo.

Na avaliação do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, não há motivos para acreditar que as pessoas se sentem hoje mais confiantes do que três meses atrás para gastar a poupança acumulada na pandemia. O descontrole da pandemia prejudica, por exemplo, planos de viagens turísticas e, diferentemente do ano passado, não haverá o Carnaval, que movimenta a indústria de eventos.

"Sabe-se lá quando essa poupança vai virar consumo", diz Gonçalves, para quem a economia, se descontado o efeito estatístico, deve crescer menos de 1% neste ano. "Vai ser pior do que antes [da pandemia]", comenta o economista.

Contato: eduardo.laguna@estadao.com
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