Economia & Mercados
24/09/2021 16:01

Entrevista/Barry Eichengreen: É preciso um sistema regulatório mundial sobre crypto assets


Por Ricardo Leopoldo

São Paulo, 2/9/2021 - É necessário cooperação entre os órgãos regulatórios de diversos países para implementar um eficiente sistema normativo global em relação aos crypto assets e a instituição adequada para organizar esse processo é Banco de Compensações Internacionais(BIS, na sigla em inglês), o banco central dos bancos centrais, diz ao Broadcast em entrevista exclusiva Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Para o acadêmico, é possível que quando houver um movimento súbito de queda das cotações destes ativos "altamente valorizados", que hoje já possuem um valor total de mercado de US$ 2 trilhões, ocorra uma rápida fuga de investidores ao risco, mas será difícil para todos venderem suas posições de uma só vez. "Não somente ocorrerão sérias correções de preços como também acontecerão graves problemas de liquidez. As plataformas onde os negócios de crypto assets ocorrem podem parar de funcionar", afirma. "Eu estou preocupado que este tipo de situação poderá ocorrer e gerar sérios efeitos negativos sobre outras partes do sistema financeiro, como bancos que provém liquidez ou funding para algumas destas plataformas de operação dos crypto assets."

Eichengreen acrescenta que o próximo presidente do Federal Reserve em 2022, mesmo que seja Jerome Powell, precisará apertar as regulações financeiras e deixar claro que o combate a graves alterações do meio ambiente também faz parte dos seus mandatos, pois tais problemas são uma ameaça à existência da humanidade. Acompanhe os principais trechos da entrevista.



Broadcast: Por que o senhor não acredita que o dólar perderá sua supremacia internacional com o surgimento de moedas digitais de bancos centrais (CBDCs, na sigla em inglês)?

Barry Eichengreen:
As CBDCs não mudarão a atração às principais moedas rivais ao dólar: o euro e o renminbi. Entre os obstáculos para o maior uso internacional do renminbi estão o controle de capitais na China e preocupações com privacidade e segurança de dados. A China limitará o acesso à quantidade de renminbi digitais que qualquer pessoa poderá ter em sua carteira online no aparelho celular. Grandes transações financeiras entre companhias internacionais não poderão ocorrer com a moeda digital daquele país. Além disso, o banco central da China aponta que terá limitada capacidade para rastrear as transações feitas com o renminbi digital. Não sabemos se esta ponderação é correta. Há também questões inter-operacionais entre as moedas digitais envolvendo os bancos centrais a fim de permitir a livre troca de uma divisa por outra. Quando uma rede de restaurantes na Coreia do Sul quiser importar café da Colômbia ou do Brasil será que os BCs do Brasil e da Coreia do Sul poderão emitir moedas digitais que poderão ser trocadas livremente? Será necessário estabelecer um acordo bilateral muito complicado entre os dois países, pois terão que criar uma plataforma na qual a troca das divisas ocorrerá e terão que autorizar bancos ou dealers para realizá-la, um processo que precisará ser bem regulamentado. Se o Brasil fizer este tipo de acordo com a Coreia do Sul terá que agir da mesma forma com outros 200 países. Multiplique este número por todas as nações e teremos uma quantidade imensa de acordos bilaterais, o que não funcionará.

Broadcast: O próximo presidente do Fed em 2022, independente de quem for, vai criar o dólar digital?

Eichengreen:
O Federal Reserve está investigando esta questão, sobretudo o Fed de Boston. Eu penso que o banco central dos Estados Unidos vai se mover lentamente. Já existem muitas aplicações internacionais do dólar e o Fed não necessita agir com rapidez nessa área. O Federal Reserve precisa convencer-se sobre os benefícios do dólar digital e avaliar os riscos, que incluem questões de segurança. Se o dólar digital sofrer ações de hackers haverá consequências muito graves ao sistema financeiro e à economia. Também acredito que o Fed está preocupado com a possibilidade de que pessoas que tiverem dólar digital numa conta junto ao Fed irão retirar seus depósitos de bancos comerciais, o que terá implicações adversas para o sistema financeiro.

Broadcast: O professor Raghuram Rajan disse em entrevista ao Braodcast que seria importante o Federal Reserve adotar o dólar digital, pois as regras globais para o uso das moedas eletrônicas estão sendo estabelecidas agora e o Fed corre o risco de ficar à margem deste processo se não participar dele. Ao mesmo tempo, a dirigente do Fed, Lael Brainard, ponderou que as moedas digitais serão inevitáveis e poderão ser positivas para a inclusão financeira de boa parte da população nos EUA. Qual é a avaliação do senhor sobre estes dois argumentos?

Eichengreen:
Sobre a determinação das regras para operações mundiais das moedas digitais, estas negociações ocorrerão provavelmente no âmbito do BIS e certamente os EUA poderão apontar suas avaliações e fazer parte destas negociações sem precisar ser um dos primeiros emissores de uma moeda digital. Em relação ao sistema bancário, há diferentes modelos que podem ser estabelecidos, como limitar o montante de moedas digitais que cada cidadão poderá ter. Há vários sistemas em estudo nos quais as moedas digitais poderão ser distribuídas. Um deles seria através de bancos comerciais, que receberiam recursos do banco central e direcionariam valores para as contas individuais dos clientes, o que permitiria transferência de dinheiro entre as pessoas. Eu penso que o dólar digital pode ter alguns benefícios, como inclusão financeira. Cerca de 10% da população dos EUA que não têm uma conta bancária e um cartão de crédito poderiam ter acesso ao dólar digital. Companhias de cartões cobram cerca de 2% por transação e transferências internacionais são ainda mais caras. As moedas digitais podem trazer estes custos para baixo, a princípio. O que os bancos centrais tentam fazer é equilibrar os potenciais benefícios com os riscos. Eu avalio que seria prematuro os EUA adotarem o dólar digital, pois os riscos superam os retornos positivos.

Broadcast: O Banco Central Europeu aponta que pode implementar o euro digital em 5 anos. Quando o senhor acredita que o mundo terá pleno uso de moedas digitais de bancos centrais?

Eichengreen:
Eu acredito que a China deverá ter um uso nacional do renminbi digital provavelmente no próximo ano e outros bcs, como o da Suécia, vão seguir tais passos bem rápido. Dependerá de cada país e de suas regulações. Para a maioria de nós, não fará grande diferença. Quando eu compro o meu café no local de costume eu apenas passo o meu cartão de crédito no caixa e a transação ocorre de forma digital. Minha avaliação é que vai demorar mais anos do que imaginamos para termos o pleno uso de CBDCs, mas em um determinado instante haverá um forte movimento de muitos bancos centrais se movendo na mesma direção.

Broadcast: Há no mundo cerca de 9 mil crypto assets, alguns com nomes exóticos como Fantom, Ravencoin e Sushi. Eles têm um valor total de mercado próximo a US$ 2 trilhões e atuam com poucas regulações internacionais. O senhor avalia que é necessário a adoção de normas rigorosas sobre estes ativos altamente especulativos para evitar sérios riscos aos mercados financeiros globais?

Eichengreen:
Cada jurisdição nacional tem autoridades financeiras e normativas e pode regular estes ativos. A necessidade de regular a criptoesfera está ficando clara para todos porque há tanto dinheiro ligado a estes ativos e se algo errado ocorrer haverá um problema para o sistema financeiro.

Broadcast: Apesar das regulações de cada país, os mercados financeiros são globais e será inevitável as autoridades financeiras nos EUA, Europa, Inglaterra e Japão firmarem um conjunto de regras internacionais para regulamentar os crypto assets, não?

Eichengreen:
Eu concordo com você. Muitos destes negócios podem ser realocados para diferentes jurisdições. É preciso haver cooperação entre os órgãos regulatórios para que seja implementado um sistema normativo eficiente. O BIS é a instituição adequada, pois tem sido o fórum de regulações internacionais de bancos, estuda normas financeiras globais e tem a infraestrutura para organizar esta cooperação. Quando fatos errados surgem, o que ocorre de tempos em tempos, e há um episódio de investidores fugindo do risco no qual todos tentam se salvar, quem estiver aplicado nestes ativos altamente valorizados descobrirá que será difícil para todos se livrarem deles de uma vez só. Não somente ocorrerão sérias correções de preços como também acontecerão graves problemas de liquidez. As plataformas onde os negócios de crypto assets ocorrem podem parar de funcionar, da mesma forma quando há problemas em bolsas de valores quando acontece uma queda brusca dos mercados de ações. Eu estou preocupado que este tipo de situação poderá ocorrer e gerar sérios efeitos negativos sobre outras partes do sistema financeiro, como bancos que provém liquidez ou funding para algumas destas plataformas de operação dos crypto assets.

Broadcast: O senhor avalia que o próximo presidente do Fed em 2022 vai adotar medidas de política monetária de combate a mudanças climáticas e maior regulação sobre os bancos, como defende Lael Brainard? Quem será o próximo presidente do Fed?

Eichengreen:
Há grande probabilidade de renomeação de Jerome Powell como presidente do Fed em 2022. Brainard é também muito boa e tem uma opinião diferente da avaliação de Powell sobre quão apertada devem ser as regulações financeiras. Ela as conhece bem e sou simpático a muitas posições dela. Eu defendo que o Fed deveria voltar a adotar regulações financeiras mais rigorosas e penso que vai mover-se nesta direção, seja quem for o próximo presidente. Mesmo com a presidência de Powell, tendo talvez Brainard na vice-presidência, o Fed poderá adotar regulações financeiras mais rígidas. Eu também penso que os bancos centrais não podem ignorar ameaças existenciais à economia e a sociedade, mesmo que elas não surjam de áreas nas quais os BCs não são diretamente responsáveis. Christine Lagarde, presidente do BCE, está correta ao apontar que mudanças climáticas se tornaram uma ameaça existencial à humanidade. Bancos centrais não podem apenas dizer que este é um problema dos outros, pois temos nosso mandato duplo e vamos ignorar tudo mais. Em tempos de guerra ou pandemias, bancos centrais contribuem para o apoio de empresas e para que famílias possam colocar comida na mesa. Da mesma forma, os BCs necessitam contribuir com os esforços contra mudanças climáticas. Eles precisam deixar claro que não podem resolver sozinhos os problemas ambientais, que não são as primeiras agências governamentais para enfrentar estas questões. Mas bancos centrais têm que contribuir com a solução e têm que comunicar ao público que tal objetivo faz parte dos seus mandatos.

Broadcast: Quando o senhor avalia que o Fed começará o tapering e o ciclo de alta de juros?

Eichengreen:
O Fed tem dito que poderá iniciar o tapering no final deste ano e indica que poderá começar a subir os juros no encerramento de 2022. Mas como o Federal Reserve também aparentemente sugere que a alta da inflação está um pouco mais persistente do que ele imaginava, talvez o tapering poderá começar um pouco mais cedo do que no fim de 2021 e a alta de juros antes também do final do próximo ano. Mas será apenas um pouco.

Broadcast: A variante delta da covid-19 poderá mudar este cenário?

Eichengreen:
Caso a economia dos EUA enfraqueça de modo significativo, o Fed adiará o tapering e a alta de juros. Tudo depende do vírus.

Contato: ricardo.leopoldo@estadao.com
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