Economia & Mercados
08/04/2020 15:37

Entrevista/Itaú/Mesquita: 'lockdown' deve ter impacto negativo de 0,35% no PIB anual por semana


Por Simone Cavalcanti

São Paulo, 08/04/2020 - O economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, afirma que, muito embora necessárias do ponto de vista de contenção da pandemia de coronavírus, as medidas de isolamento social podem causar um impacto negativo de 0,35% a cada semana no PIB anual. "Uma crise de saúde pública ainda mais grave, com a pandemia fora de controle, provavelmente teria impacto econômico mais intenso", pondera.

Mesquita estima que, em 2020, a economia brasileira apresente contração de 2,5% e que a taxa Selic chegue a dezembro em 2,5% ao ano. "Vale notar que o regime de metas para a inflação está valendo, então se a trajetória dos preços ameaça desviar de forma sustentada e relevante das metas, cabe ao BC recalibrar a política monetária."

Para o também ex-diretor do Banco Central, a autorização para que a autoridade monetária faça um programa de 'quantative easing' vai na direção certa, mas desde que seja excepcional. "QE permanente não parece indicado para um país com problemas fiscais crônicos e um histórico inflacionário complicado", enfatiza. A seguir, a entrevista:



Broadcast - Muitos estão classificando essa crise com um ineditismo a respeito da rapidez e do elevado grau de incertezas. Qual a sua percepção ?

Mário Mesquita -
Trata-se mesmo de uma crise inédita. É essencialmente uma crise de saúde pública, que impacta o setor real e, a partir daí, pode afetar também o setor financeiro.

Broadcast - O que esperar desse 'lockdown' do ponto de vista de impacto econômico no Brasil?

Mesquita -
As medidas de distanciamento social são, segundo os especialistas em saúde, necessárias para conter a pandemia. Estimamos que tenham impacto negativo de 0,35% no PIB anual por semana. Uma crise de saúde pública ainda mais grave, com a pandemia fora de controle, provavelmente teria impacto econômico ainda mais intenso.

Broadcast - Qual a sua avaliação das medidas que vem sendo tomadas pelo Banco Central para injetar liquidez no sistema?

Mesquita -
São medidas apropriadas. O BCB tem feito o que pode, com a caixa de ferramentas disponível no momento.

Broadcast - Vai na direção correta a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permite ao BC fazer uma espécie de QE?

Mesquita -
Vai, como medida emergencial, desde que só possa ser ativada em circunstâncias especiais, como a crise de saúde pública que temos no momento. QE permanente não parece indicado para um país com problemas fiscais crônicos e um histórico inflacionário complicado.

Broadcast - Do ponto de vista fiscal, as medidas que o governo brasileiro tem apresentado são suficientes para este momento?

Mesquita -
São medidas amplas. Creio que as maiores dificuldades sejam operacionais, do que relativas ao montante total de recursos.

Broadcast - O governo parece, deliberadamente, tranquilo com o dólar acima de R$ 5. Alguma retomada do crescimento pode vir por exportações?

Mesquita -
Não sei se há essa tranquilidade. Existe, sim, a percepção que o dólar caro segue-se de um ambiente de juros baixos no Brasil. Dado o ambiente global, pelo menos o esperado para 2020, é pouco provável que as exportações sejam um motor importante da recuperação econômica.

Broadcast - O Itaú Unibanco espera que haja mais estímulo monetário, com a redução da taxa Selic a 2,5%, em sua mais recente projeção. Com a economia parada, não seria 'enxugar gelo' dar mais monetário via barateamento do custo do dinheiro em vez de fiscal?

Mesquita -
Cortes da Selic, quando conseguem distender as condições financeiras, ajudam a mitigar o choque contracionista e ajudarão a retomada. Não resolvem o problema isoladamente, mas podem ajudar. Vale notar que o regime de metas para a inflação está valendo, então se a trajetória dos preços ameaça desviar de forma sustentada e relevante das metas, cabe ao BC recalibrar a política monetária.

Broadcast - Como na crise de 2008, em um possível estrangulamento econômico, há que nível de risco para os bancos pequenos e médios?

Mesquita -
O sistema entrou na crise com níveis de capitalização e liquidez adequados, creio que esse ponto de partida sólido, aliado às medidas anunciadas pelo BCB e CMN, são suficientes para assegurar a higidez do sistema.

Broadcast - Com esta crise, notadamente, haverá um atraso no andamento das reformas. Quais os aspectos negativos que serão carregados para a economia em 2021?

Mesquita -
O mais importante não é a magnitude da expansão fiscal a ser observada em 2020, que será, e deve ser, expressiva. A questão é evitar que gastos e renúncias de receitas emergenciais se tornem permanentes. Passada a atual emergência, no segundo semestre, é possível que a agenda de reformas seja retomada, provavelmente de onde parou, notadamente as medidas relativas a ajuste fiscal e reforma tributária.

Contato: simone.cavalcanti@estadao.com
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