Economia & Mercados
21/01/2022 18:28

Especial: Com aporte na Mercado Bitcoin, Mercado Livre pula de cabeça no universo cripto


Por Aramis Merki II e Talita Nascimento

São Paulo , 21/01/2022 - O Mercado Livre anunciou nesta manhã a compra de uma participação no Grupo 2TM, que controla o Mercado Bitcoin, e também da Paxos, plataforma de infraestrutura de blockchain. A transação, cujo valor não foi informado, coloca a plataforma varejista em condições de acessar um novo mercado: a compra e venda de ativos digitais. Trata-se de testar as águas de um mundo que ainda não está acabado, e, hoje, pode custar mais investimentos do que dar retorno. Mas o pioneirismo oferece tantos riscos quanto oportunidades.

O movimento tem um lado que pode ser mais imediato - e menos representativo - e outro mais estratégico. Eduardo Yamashita, chefe de operações da consultoria Gouvêa, diz que o aporte pode servir para gerar comentários e atenção do público sobre a empresa à medida em que ela passe a aceitar transações com criptomoedas no País, mas isso seria marginal para os números da empresa. O interessante mesmo é a aposta que pode vir a seguir.

"As possibilidades de ativos digitais ainda são incipientes. Há muita experiência e tentativas, mas ninguém sabe para onde esse mercado vai daqui a cinco ou 10 anos. O mercado ainda é pequeno, mas pode ser que seja muito relevante", afirma Yamashita. Dado esse contexto, ele avalia que a cartada mais importante do Mercado Livre com esse aporte seria uma entrada no ramo de compra e venda de ativos digitais como os NFTs (tokens não-fungíveis, na sigla em inglês). Marcas como Adidas já lançam produtos em uma versão virtual com esta tecnologia, por exemplo.

Para Alberto Serrentino, fundador da consultoria Varese, esse movimento está alinhado com a proposta do Mercado Livre e com as tendências do futuro. "É uma agenda que provavelmente vai ganhar força mais à frente, assim como NFTs e blockchain. Dominar e estar presente ativamente nessas tecnologias fortalece a plataforma", afirma.

Ele lembra que o Mercado Livre tem a clara intenção de crescer como ecossistema e não apenas como shopping virtual. Nesse contexto, tão importante quanto vender produtos dos lojistas virtuais é vender serviços para clientes e vendedores da plataforma. Quando se trata de serviços financeiros, aliás, o Mercado Pago - fintech do Meli - é tido como um dos braços de pagamento e crédito mais desenvolvidos do comércio eletrônico brasileiro. Não à toa, quer ser pioneiro no uso das criptomoedas.

O Mercado Livre já vinha flertando com o mundo cripto ao longo do ano passado. No primeiro trimestre, comprou US$ 7,8 milhões em bitcoin. "Como parte de nossa estratégia de tesouraria neste trimestre, compramos 7,8 milhões de dólares em bitcoin, um ativo digital que estamos divulgando dentro de nossos ativos intangíveis de duração indefinida", informou à época ao órgão regulador do mercado de capitais americano, a SEC).

Além disso, a empresa aceita o pagamento de imóveis em bitcoin em seu país de origem, a Argentina, desde abril. Por aqui, a companhia decidiu inaugurar a ferramenta de compra e venda de criptomoedas dentro da sua carteira digital, o Mercado Pago. A novidade foi lançada em dezembro, com parceria da Paxos. A possibilidade para clientes pagarem suas compras com as moedas digitais, porém, não é liberada.

Produto nacional

A compra de participação na 2TM coloca o Mercado Livre dentro do Mercado Bitcoin, maior player brasileiro entre as corretoras de criptoativos. As empresas não comentaram sobre planos futuros, mas a parceria indica que o Meli escolheu mergulhar no mercado cripto através do país mais importante para os seus negócios. "O fato de ser (um player) local tem vantagem para o mercado de varejo. As soluções bancárias são mais fáceis de serem integradas, como o recebimento do PIX", aponta o analista Orlando Telles, da Mercurio Crypto.

Outro ponto citado é a 'maior estabilidade regulatória' que a exchange local consegue, até por ter um contato mais próximo com os reguladores. Além disso, uma barreira para as estrangeiras é a capacidade para oferecer suporte aos clientes, que é facilitado se a empresa fala português.

A 2TM recebeu aporte de US$ 200 milhões do Softbank em julho do ano passado. O investimento a alçou ao patamar de unicórnio - startup que vale mais de R$ 1 bilhão -, a primeira do segmento cripto. Anteriormente os fundos da GP Investments e da Parallax Ventures já haviam injetado capital na empresa.

Pioneira nos EUA

Telles destaca que a americana Paxos foi pioneira no desenvolvimento de tecnologias para a custódia de criptoativos para investidores institucionais. Outro ponto positivo é que a empresa prioriza a adequação às exigências regulatórias rígidas dos Estados Unidos. "A Itbit, que é a asset ligada à Paxos, tem se dado muito bem no aspecto de governança e está entre as principais exchanges dos EUA em termos de transparência e custódia", diz.

A Paxos também é líder em outro segmento: o de "tokenização" de ativos. A empresa tem stablecoins (criptomoeda que replica o preço de um ativo real) ligadas ao dólar e ao ouro. Este tema pode render muito ao Mercado Livre, já que uma das qualidades que os latinoamericanos veem em cripto é a chance de retirar seu patrimônio da instabilidade das moedas locais.

Mainstream

Para Telles, o movimento do Mercado Livre vem com a leitura de que as criptomoedas estão se tornando mainstream. "Desde que o Paypal entrou neste mercado, em 2020, a gente vê grandes instituições olhando com mais confiança. Isso foi possível porque nos anos anteriores a indústria cripto evoluiu as soluções de custódia e segurança", diz Telles.

Os ciclos de expansão da indústria cripto têm início geralmente com a alta do preço, explica Telles, como a vista em 2020 e 2021. "O mercado cresceu quase dez vezes em 16 meses, e esse crescimento foi muito noticiado, atraiu público e criou a necessidade de novas soluções."

Contato: talita.ferrari@estadao.com; aramis.merki@estadao.com
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