Economia & Mercados
13/05/2022 17:36

Especial: vulnerável à cautela por inflação e juros, bitcoin perde metade do valor em 6 meses


Por André Marinho

São Paulo, 12/05/2022 - O êxodo de ativos de risco que se espalhou pelas mesas de operações globais nas últimas semanas castigou o bitcoin. A criptomoeda perdeu metade do valor registrado no pico histórico, há cerca de seis meses, e opera nos menores níveis desde janeiro de 2021, abaixo de US$ 30 mil. Em meio a renovados sobressaltos com inflação e juros mais altos nas principais economias do mundo, a tendência é de que as moedas digitais sigam atrelados ao clima geral do mercado, mas uma possível onda de vendas por fatores técnicos ameaça impor pressão de queda ainda mais intensa.

Na semana passada, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ampliou a dose do combate à escalada inflacionária e aumentou juros em 50 pontos-base, depois de ter elevado a taxa básica em 25 pontos-base em março. A autoridade monetária sinalizou que novos aumentos serão necessários e também anunciou o início da redução do balanço patrimonial. A justificativa para as políticas é o persistente choque de preços, agravado pela guerra da Rússia na Ucrânia e rígidas medidas contra o coronavírus na China.

O temor de que a postura mais firme do Fed empurre a maior economia do planeta à recessão imprimiu cautela aos negócios financeiros no geral. No entanto, por terem um grau ainda maior de instabilidade inerente, os criptoativos tiveram desvalorização mais acentuada. O bitcoin, que havia se estabilizado nos arredores de US$ 40 mil no final de abril, despencou para a faixa dos US$ 30 mil e, em seguida, perdeu a marca. Entre as altcoins, como são conhecidas as demais criptomoedas, a ether recuou 35% no último mês, a cerca de US$ 1,94 mil, e a dogecoin sofreu uma drástica queda de 45%, passando a valer ao redor de US$ 0,08. "Os fundamentos de longo prazo do bitcoin não mudam há meses, mas as preocupações com o crescimento/recessão tornaram este um ambiente muito difícil para as criptomoedas", define o analista Edward Moya, da Onda.

A divulgação de novos dados de inflação nos EUA, ontem, trouxe ainda mais instabilidade. Em abril, o índice de preços ao consumidor teve a primeira desaceleração desde agosto, mas seguiu nos níveis mais altos em quatro décadas, segundo o Departamento do Trabalho. Na esteira do indicador, o bitcoin oscilou entre robustos ganhos e perdas, antes de encerrar o dia no vermelho. "O bitcoin permanece muito vulnerável a mais pressão de venda e pode ver mais vendas técnicas se o nível de US$ 28.500 for rompido", afirma Moya.

O quadro marca uma quebra com o comportamento histórico das divisas criptografadas, que costumavam ter oscilações mais independentes das áreas convencionais do setor financeiro. O cofundador e CIO da bolsa de criptoativos Uniera, Caio Villa, explica que abalos semelhantes anteriores foram geralmente causados por fatores particulares do universo cripto. "Agora, é um momento bem diferente: todo mundo está com medo em todos os mercados, tomando menos risco", avalia, em entrevista ao Broadcast.

Villa identifica duas variáveis por trás dessa menor tolerância à tomada de risco. Uma deles é o recente surto de covid-19 na China, onde Xangai e outras grandes cidades voltaram a decretar lockdown - o mais rigoroso nível de restrição à circulação de pessoas. Os bloqueios levaram ao fechamento de lojas e fábricas e prejudicaram as já estressadas cadeias produtivas globais. O segundo fator, de acordo com Villa, é a ofensiva russa na Ucrânia, que entrou em seu terceiro mês sem perspectiva de resolução. "Na visão macro, não tem como haver melhora até que essas questões fiquem mais claras", destaca.

Perda de paridade da TerraUSD

Para o analista Sipho Arntzen, do Julius Baer, os contratempos das criptomoedas devem persistir e uma reversão dessa tendência é improvável, em meio à expectativa por uma resposta agressiva dos bancos centrais ao ambiente de inflação. No entendimento dele, a correlação de ativos digitais com os mercados tradicionais tende a disparar em contextos de aversão a risco, como corroborado pelo contexto atual. "Portanto, vemos as criptomoedas principalmente como um fomentador de retornos em um portfólio, em vez de um ativo de refúgio", ressalta.

Outro desdobramento que encobre o horizonte de curto e médio prazos do complexo das criptos é o colapso da stablecoin TerraUSD (UST), acrescenta Arntzen. Stablecoins são criptomoedas atreladas a algum ativo real, grande parte deles ao dólar. Mas, enquanto na maioria dos casos a paridade é garantida por ativos muito líquidos, a UST depende de um algoritmo para continuar valendo US$ 1. A dinâmica é conduzida por uma arquitetura complexa que utiliza o token Luna, parte da mesma rede.

O problema é que a depreciação dos últimos dias inviabilizou o processo e a TerraUSD despencou para nível muito abaixo da equivalência. Ontem, na mínima do dia, chegou a ser negociada a US$ 0,23. Segundo Villa, da Uniera, o cenário suscitou pânico entre investidores, que correram para retirar os depósitos do protocolo Anchor - a tecnologia que funciona como uma espécie de "banco" descentralizado para os usuários da rede Terra. "Eu particularmente acredito que a paridade voltará, a questão é saber quando e como", diz Villa.

Arntzen, do Julius Baer, acredita que o episódio intensificará o escrutínio regulatório sobre essa área. "Esperamos que os reguladores acabem procurando criar um campo de atuação mais nivelado entre esses dois mundos, o que acreditamos que irá incutir confiança e, finalmente, promover mais adoção de ativos digitais", avalia.

Apesar das incertezas, o CEO da Bitso Brasil, Thales Freitas, ainda vê as stablecoins como uma alternativa interessante a investidores que queiram escapar da volatilidade das outras criptomoedas. "Nesse cenário de oscilações, estamos vendo mudanças muito interessantes no comportamento de investidores e usuários de criptoativos, que têm buscado novas alternativas e caminhos para lidar com momentos de instabilidade", analisa.

Contato: andre.marinho@estadao.com
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