Economia & Mercados
24/05/2023 17:45

Entrevista/Allianz/Holzhausen: aperto monetário amplia pressão sobre sistemas previdenciários


Por Laís Adriana

São Paulo, 23/05/2023 - O aperto monetário por bancos centrais amplia a pressão sobre sistemas previdenciários para se manter por conta própria e gera perdas para donos de ativos dos fundos de pensão, com impactos similares às recentes turbulências bancárias nos EUA. A análise é do diretor de Pesquisa de Seguros, Riqueza e Tendências da Allianz, Arne Holzhausen, em entrevista ao Broadcast.

Holzhausen destaca que este cenário impõe uma decisão difícil para governos e gestores de fundos, tendo que optar por aumento das contribuições ou cortes de benefícios aliados ao prolongamento do tempo de trabalho.

O diretor liderou um estudo ao lado da economista sênior do Allianz, Michaela Grimm, que analisa sistemas previdenciários de 75 países frente a três pilares: condições demográficas e fiscais básicas, sustentabilidade e adequação. Foram considerados 40 parâmetros com valores que variam de 1 (muito bom) a 7 (muito ruim), cuja média final determina a pontuação e classificação global de cada país no índice Allianz Pension (API, na sigla em inglês).

A necessidade latente de reformas no sistema previdenciário brasileiro colocou o país em 65º lugar entre os 75 países analisados. Holzhausen aponta que, no Brasil, a estratégia conjunta de cortar benefícios e prolongar participação no mercado de trabalho pode ser "inevitável" e crucial para garantir a sustentabilidade no longo prazo, devido aos riscos gerados pelo rápido envelhecimento da população.

Em geral, Holzhausen acredita que a seguridade social deve ser repensada a partir dos novos desafios. Ele defende que, por exemplo, a dicotomia entre emprego e aposentadoria precisa ser revisada. "Estamos à beira de uma mudança radical. A automação, a digitalização e, especialmente, a inteligência artificial provavelmente causarão disrupção no mundo da educação e do trabalho", afirma.

Confira a entrevista completa abaixo:

Broadcast - Você poderia explicar mais profundamente sobre os impactos do aumento global das taxas de juros pelos bancos centrais nos sistemas previdenciários?

Holzhausen - A longo prazo, o aumento é claramente positivo. O efeito da taxa de juros composta permite que os poupadores construam um pé-de-meia decente para a velhice (se começarem cedo). No curto prazo, porém, os proprietários de ativos - como os fundos de pensão - têm de lidar com perdas de valor devido à súbita reviravolta nas taxas, com consequências severas semelhantes às testemunhadas pelos fundos de pensão do Reino Unido no ano passado ou pelos bancos regionais dos EUA neste ano. Mas há outro impacto indireto: taxas de juros mais altas significam o fim dos excessos de gastos públicos dos últimos anos, requisitando uma política fiscal responsável. Isso aumenta a pressão sobre os sistemas previdenciários para que se mantenham por conta própria, levando a inevitáveis aumentos de contribuições e/ou reduções de benefícios, além do prolongamento do tempo de participação no mercado de trabalho.

Broadcast - Em um relatório recente, a Allianz destaca a necessidade de reformas conjuntas para trazer sustentabilidade ao sistema previdenciário. No Brasil, quais são os pontos mais urgentes, pensando por uma perspectiva integrada de trabalho, previdência e área fiscal?

Holzhausen - O Brasil já deu alguns passos encorajadores, notadamente a ampliação da idade mínima para aposentadoria. Mas, dada a rápida deterioração da perspectiva demográfica - a taxa de dependência dos idosos deve mais do que dobrar para 34,7% até 2050 - exige novas reformas. Uma abordagem tripla incluiria a consolidação das finanças públicas - de preferência por uma política orientada para o crescimento -, aumento da cobertura - por meio da redução do trabalho informal - e melhoria do acesso a serviços financeiros e alfabetização financeira. Estes últimos são cruciais: reduções no nível de benefícios do sistema previdenciário público podem se tornar inevitáveis para manter sua sustentabilidade no futuro, momento no qual a previdência privada deve ser capaz de preencher a lacuna.

Broadcast - No levantamento, apenas o México conseguiu classificação na faixa de 3,0 (nível satisfatório), entre os países da América Latina. Qual foi o diferencial do país em relação a outros na região? Este padrão pode ser replicado?

Holzhausen - Algumas das características podem ser replicadas, por exemplo, a maior taxa de cobertura. Mas a principal força do sistema previdenciário mexicano é difícil de imitar: o déficit orçamentário público ainda é bastante baixo e, acima de tudo, a taxa de contribuição ainda é extremamente baixa em comparação. Isso dá ao México mais liberdade para adaptar seu sistema previdenciário à mudança demográfica; portanto, sua sustentabilidade está em menor perigo. Contudo, a adaptação também é uma necessidade para o país, já que o panorama demográfico ou a situação da poupança privada são tão desafiadores quanto nos demais países da região.

Broadcast - O relatório ressalta a situação previdenciária crítica na França e na Itália, porém, podem ser necessárias reformas semelhantes no Reino Unido, considerando a dívida fiscal elevada do país? Quais?

Holzhausen - A França se destaca por sua combinação de idade precoce de aposentadoria com uma expectativa de vida longa. O Reino Unido decidiu, alguns anos atrás, aumentar a idade mínima de aposentadoria para 67 anos até 2028. Mas a verdadeira força do sistema previdenciário britânico é o amplo e quase obrigatório segundo pilar financiado pelo capital privado, também introduzido muitos anos antes. Portanto, a pressão da reforma é menor do que, digamos, na França.

Contato: lais.adriana@estadao.com
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