Política
23/09/2021 07:39

Exclusivo:Ministério da Cidadania descumpre lei e ignora pedido de informação de Auxílio Brasil


Por Idiana Tomazelli

Brasília, 22/09/2021 - O Ministério da Cidadania ignorou um pedido de acesso a pareceres e notas técnicas que serviram de base para a formulação da medida provisória que criou o Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família proposto pelo governo em 9 de agosto deste ano. A ausência de resposta fere a Lei de Acesso à Informação, que dá ao órgão até 30 dias para apresentar os documentos ou uma justificativa para mantê-los sob sigilo.

O pedido foi feito pelo Broadcast em 10 de agosto, um dia após o envio da MP. O prazo inicial era 30 de agosto, mas foi prorrogado para 9 de setembro, dentro das previsões legais. Mesmo assim, a solicitação foi ignorada pela pasta. O Broadcast protocolou uma reclamação devido ao descumprimento do prazo, que tampouco foi atendida.

A reportagem recorreu à Controladoria-Geral da União (CGU), que deferiu nesta quarta-feira (22) o pedido de acesso aos pareceres e determinou que os documentos sejam encaminhados no prazo de cinco dias. "A LAI prevê a responsabilização dos agentes públicos quando da prática de condutas ilícitas no tocante a recusa/retardamento no fornecimento das informações requeridas", alerta a CGU.

Os pareceres sobre o Auxílio Brasil contêm informações cruciais do programa e de relevante interesse público, como estimativas sobre público atendido, valor médio do benefício e gasto total com a política social. Os cálculos de impacto financeiro e orçamentário são uma exigência legal para esse tipo de medida.

Até agora, o governo não divulgou ao público essas informações porque busca uma solução para abrir espaço no Orçamento de 2022 e conseguir turbinar o programa, como quer o presidente Jair Bolsonaro. Em diversas ocasiões, Bolsonaro disse almejar um benefício médio de pelo menos R$ 300 para as famílias contempladas. Hoje, o Bolsa Família paga cerca de R$ 190, em média.

O diretor executivo da Transparência Brasil, Manoel Galdino, afirma que é bastante incomum um ministério ignorar pedidos de acesso à informação. "Mais de 90% dos pedidos são respondidos dentro do prazo, ainda que negativamente (quando o acesso não é concedido)", diz. "É muito incomum e é gravíssimo. Estão ignorando a lei."

Segundo Galdino, a própria lei determina que documentos já prontos (como pareceres e notas técnicas elaboradas para subsidiar uma MP) devem ser disponibilizados o mais rápido possível. A reportagem procurou a assessoria do Ministério da Cidadania para questionar a razão do descumprimento da LAI, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Para o diretor executivo da Transparência Brasil, o caso é "muito grave" e é mais um exemplo de como o governo vem descumprindo sucessivamente a Lei de Acesso à Informação.

Como revelou o Estadão no sábado (18), servidores do Palácio do Planalto têm orientado ministérios a avaliar o "risco político" e omitir informações nas respostas aos pedidos solicitados por meio da lei. A medida vai contra os preceitos de transparência previstos no texto da LAI, em vigor desde 2011 e que é considerada um modelo internacional de transparência.

A Lei de Acesso à Informação não admite critério político para concessão de informações, nem filtros relacionados a conveniências de governos. O artigo 32 da LAI, citado pela CGU na decisão favorável ao Broadcast, define como "condutas ilícitas" do agente público se recusar a fornecer informação requerida, retardar deliberadamente o seu fornecimento ou fornecê-la intencionalmente de forma incorreta, incompleta ou imprecisa. Também é ilegal "ocultar, total ou parcialmente, informação que se encontre sob sua guarda ou a que tenha acesso ou conhecimento em razão do exercício das atribuições de cargo, emprego ou função pública".

Em outra decisão que afronta os princípios da LAI, a Receita Federal negou pedido de acesso a pareceres e notas técnicas que subsidiaram o envio do projeto de lei da reforma do Imposto de Renda. O pedido foi feito pelo Broadcast em 29 de junho, dias após o envio do projeto de lei (25 de junho).

Em 29 de julho, a Receita Federal encaminhou uma nota executiva produzida em 21 de julho, quase um mês depois do envio do projeto de lei - o que não correspondia à solicitação. O Broadcast recorreu em primeira instância, mas teve o pedido negado com base no argumento de que "não há outros documentos a serem apresentados". Em recurso de segunda instância, não houve resposta do governo. O jornal Folha de S. Paulo, por sua vez, fez pedido semelhante e recebeu como resposta a alegação de que a divulgação dos dados "poderia gerar desinformação à sociedade".

Sem resposta, o Broadcast recorreu à CGU, que informou ter verificado a necessidade de "coletar esclarecimentos adicionais a fim de subsidiar uma decisão justa sobre o caso". A previsão de julgamento é de 13 de outubro, salvo a possibilidade de prorrogação única por mais 30 dias.

Contato: idiana.tomazelli@estadao.com
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