Economia & Mercados
01/12/2020 07:51

Privatização da CEB-D chega em semana decisiva, com expectativa de leilão disputado


Por Luciana Collet

São Paulo, 01/12/2020 - O processo de privatização da CEB Distribuição (CEB-D), distribuidora de energia elétrica do Distrito Federal, chega em sua fase decisiva nesta semana, quando os investidores interessados em adquirir a empresa deverão apresentar suas propostas econômicas, que serão posteriormente abertas em sessão pública de leilão. Pelo menos seis empresas demonstraram interesse, o que pode propiciar uma competição acirrada. Para alguns especialistas, a italiana Enel é considerada a favorita. A entrega dos envelopes está marcada para a manhã desta terça-feira, 1º, na B3, em São Paulo. O leilão está previsto para a manhã de sexta-feira, 4.

Entre as empresas que expressaram publicamente que estavam avaliando a distribuidora estão, além da Enel, os grupos de energia CPFL, EDP, Energisa, Equatorial e Neoenergia. Na visão de alguns especialistas, Enel sai na frente porque tem maior potencial de sinergias, já que opera a concessionária de distribuição de Goiás, atual Enel Goiás, que circunda a área de concessão da CEB-D. "A Enel é quem mais pode obter ganhos de eficiência com essa aquisição, por isso todas as apostas são de que ela deve levar esse ativo", disse um analista de um grande banco estrangeiro, na condição de anonimato.

O presidente global da Enel, Francesco Starace tentou disfarçar o jogo, na semana passada. Durante coletiva de imprensa, disse que há um desbalanceamento entre as operações da companhia nos segmentos de geração e distribuição, e no momento a empresa precisa adicionar mais ativos geração. Ele admitiu, porém, que a companhia - com distribuidoras em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Ceará - avalia ativos adicionais de distribuição de energia. Nem todos seriam do interesse da companhia, "seja por conta da posição no País ou porque talvez há expectativas irreais do lado vendedor". "Mas certamente tudo o que disponível para venda, vamos avaliar", afirmou.

Além da posição geográfica, também favorece a Enel, na avaliação de analistas, o fato de que o grupo italiano tem suporte financeiro para realizar mais de US$ 4 bilhões em aquisições - e a CEB teria pouco peso nessa conta. O valor mínimo estabelecido no edital para a aquisição é de R$ 1,4 bilhão, ou cerca de US$ 260 milhões.

No entanto, a declaração de Starace levanta dúvidas quanto ao valor da operação. Os analistas do Credit Suisse Carolina Carneiro e Rafael Nagano consideraram que o valor mínimo proposto é "inicialmente caro". A dupla leva em consideração um múltiplo implícito de 2,1 vezes a Base de Ativos Regulatórios (RAB, na sigla em inglês) ou 14,2 vezes o Ebitda corrente. O Ebitda normalizado da CEB é de cerca de R$ 160 milhões, abaixo do nível regulatório de R$ 190 milhões, por conta de perdas e custos acima das metas regulatórias.

Embora os analistas digam que empresas eficientes usualmente têm custos 20% melhores que os níveis regulatórios acordados nas revisões tarifárias, podendo chegar a bater 30% em alguns casos, eles afirmam que o potencial de ganho adicional com a aquisição, no cenário base, é limitado. "O Ebitda poderia alcançar R$ 300 milhões, se assumirmos que a companhia pode superar os parâmetros regulatórios para custos como players eficientes fazem e reduzir as perdas até a meta regulatória", dizem. Nesses níveis, a relação Valor da Empresa/Ebitda pós recuperação chegaria 7,5 vezes, praticamente em linha com outras distribuidoras listadas em Bolsa, nos preços atuais", escreveram, em relatório.

Já o presidente da EDP Brasil, Miguel Setas, afirmou que o valor de R$ 1,4 bilhão sugerido é compatível com as transações efetuadas no Brasil ao longo dos últimos anos. "Olhamos para este valor perfeitamente alinhado com as práticas do mercado para este tipo de operação", disse em teleconferência referente aos resultados no terceiro trimestre. Segundo ele, a distribuidora brasiliense se encaixa nos objetivos estratégicos da companhia.

A equipe de análise do Credit afirma que, ainda que o retorno possa ser apertado, a localização da CEB e suas características podem atrair interesse de diversos grupos como operação em áreas geográficas próximas. Além da Enel, eles consideram Equatorial, Energisa e Neoenergia como fortes candidatos. "Como o ativo é pequeno em tamanho e os investimentos não devem ser muito maiores que R$ 100 milhões, não esperamos que pressione a alavancagem desses players, caso vençam o leilão. Entretanto, dependendo da competição - os últimos leilões no setor foram muito competitivos - o retorno final pode ser considerado pequeno e não agradar o mercado, inicialmente", escreveram.

Em recente entrevista ao Broadcast, o diretor financeiro da Energisa, Mauricio Botelho, reiterou que a companhia está analisando empresas com "projeto de privatização", em uma referência à distribuidora CEB, como também à gaúcha CEEE D. A companhia tem atualmente 11 distribuidoras, espalhadas por Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, Sergipe, São Paulo, Tocantins, Acre e Rondônia, sendo os últimos ativos adquiridos da Eletrobras entre 2018 e 2019 e ainda em fase de recuperação.

A Equatorial também sinalizou recentemente que avaliava a CEB-D. "A gente está olhando ainda, buscando justamente identificar essas oportunidades (de sinergias), que naturalmente os outros também estão procurando. Ainda estamos prospectando oportunidades dentro desse ativo", disse o presidente do grupo, Augusto Miranda, durante teleconferência com analistas e investidores.

Em outubro, o presidente da Neoenergia, Mario Ruiz-Tagle, também falou da privatização. "São ativos interessantes, há potencial sinergia com as nossas operações e abrem um novo mercado para o Grupo Neoenergia, ampliando nosso tamanho", disse, durante evento setorial. Com distribuidoras em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Bahia, a companhia avaliaria o ativo. "Não pode tirar do nosso foco de expansão. Temos um plano de investimento de R$ 20 bilhões em geração renovável e linhas de transmissão", disse.

A CEB-D possui cerca de 1,1 milhão de clientes em uma área considerava atraente, tendo em vista a alta densidade populacional e o alto poder aquisitivo, com PIB per capita quase 2,5 vezes a média brasileira. Segundo dados coletados pelo Credit, o consumo por cliente é o segundo maior do País e 36% superior à média nacional, enquanto indicadores como perdas (14% do mercado total, ante meta regulatória de 11,1%) e inadimplência (abaixo de 1% da receita bruta) não são considerados altos.

Contato: luciana.collet@estadao.com
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