Política
10/07/2020 19:22

Ex-deputado Alfredo Sirkis, precursor do ambientalismo, morre aos 69 anos em acidente de carro


Por Giovana Girardi

São Paulo, 10/07/2020 - O ex-deputado Alfredo Sirkis morreu nesta sexta-feira (10), aos 69 anos, em um acidente de carro em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Sirkis foi um dos fundadores do Partido Verde (PV) e seu presidente nacional entre 1991 e 1999. Sirkis foi um dos precursores da causa ambiental no Brasil e se notabilizou nos últimos anos principalmente ao combate às mudanças climáticas.

Como deputado federal, presidiu a Comissão Mista de Mudanças Climáticas do Congresso Nacional. Foi secretário de Urbanismo (2001-2006), de Meio Ambiente (1993-1996), vereador de quatro mandatos no Rio de Janeiro. Fundador do Partido Verde (PV) e seu presidente nacional entre 1991 e 1999.

Carioca, escritor, jornalista, participou do movimento estudantil de 1968 e da resistência à ditadura. Em 1971, foi para o exílio. Morou na França, no Chile, na Argentina e em Portugal. Começou sua carreira de jornalista em 1972, em Paris, no jornal Libération, fundado por Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Foi correspondente no Chile na época do golpe que derrubou Salvador Allende e também na Argentina. Depois de residir em Portugal, retornou ao Brasil na anistia de 1979.

Em 2016, assumiu o cargo de secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Atuante nas conferências da ONU sobre o clima, sempre foi forte defensor da criação de formas de "precificar" o carbono como forma de reduzir as emissões de gases de efeito estufa no mundo. Mais recentemente, ele dirigia o think tank Centro Brasil no Clima (CBC) e representava no Brasil o Climate Reality Project do ex-vice presidente norte-americano Al Gore.

Desde que saiu do fórum, em maio do ano passado, exonerado pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, iniciou uma jornada de trabalho com governadores de todo o País para que eles assumissem a luta nacional contra as mudanças climáticas, depois de que o tema foi deixado de lado pelo governo federal. Sirkis tinha a esperança de que a pauta fosse encabeçada pelos governos subnacionais assim como ocorreu nos Estados Unidos depois que Donald Trump assumiu a presidência.

No início de julho, ele lançou o livro Descarbonário, onde tratou da importância de reduzir as emissões de gás carbônico no mundo como forma de desacelerar as mudanças climáticas, dinamizar a economia e gerar emprego.

O título foi uma brincadeira com seu livro mais famoso - Os Carbonários -, lançado no início dos anos 1980, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti, em 1981. Na obra de 40 anos atrás, ele fez um relato sobre a geração que enfrentou a ditadura entre 1967 e 1971.

Em Descarbonário, por quase 500 páginas ele usa a questão climática como fio condutor para abordar também temas como drogas, milícias, corrupção, ascensão e queda da esquerda, ressurgimento e vitória da extrema-direita e a sobrevida do que ele chama de duas “vacas sagradas” da economia brasileira: o petróleo e o boi.

"Sirkis era literalmente um ser solar. Sua capacidade de pensar o Brasil e os problemas globais era 'renovável' e suas análises sempre muito acima da média. Tinha uma mente afiada e um grande coração. Foi político, escritor, skatista, ativista, ambientalista, tudo ao mesmo tempo", afirma a ambientalista Natalie Unterstell, que trabalhou com ele no Fórum Brasileiro de Mudança do Clima.

"Conduzimos um processo que envolveu 650 organizações em torno de detalhar a implementação do compromisso brasileiro junto ao Acordo de Paris. Sirkis pensava o Brasil e o mundo como se já vivesse no futuro. Deixa um grande legado: deu à política climática mais densidade perante à sociedade e aos governos estaduais, através do trabalho no Fórum e no Centro Brasil no Clima; deu ao mundo uma proposta de precificação positiva de carbono que ainda há de se realizar."

Ela afirma ainda que ele "tinha uma habilidade política incrível: conseguia conversar com Deus e todo mundo. Conseguia inclusive ser bem recebido por Bolsonaro."

Natalie lembra uma história que Sirkis lhe contou. "Bolsonaro quis fazer piada com ele na Câmara, quando eram deputados, dizendo que ele ignorava o maior problema ambiental da humanidade, que era o aumento populacional. Sirkis, com sua predileção pela ironia fina, declarou ao microfone: mais uma razão para se aceitar o casamento homoafetivo, nobre deputado."

Ana Toni, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade, também lembrou a importância de Sirkis para o movimento ambientalista. "O Sirkis foi fundamental para a agenda ambiental e climática brasileira. Sua vida foi pautada por angariar pessoas improváveis e até céticos para esta importante luta. Um guerreiro climático!”, diz.

O Observatório do Clima, rede de mais de 50 ONGs brasileiras, disse, em uma nota de pesar. "Sua trajetória, de combatente da ditadura militar a ativista climático - ou, como ele gostava de dizer, 'de carbonário a descarbonário' - sempre será uma inspiração para o movimento ambiental. E torna-se ainda mais importante agora, quando o Brasil precisa mais uma vez exorcizar o autoritarismo e lutar pela sustentabilidade."

Para a organização, Sirkis "deixa legados gigantescos na literatura, como escritor premiado; na política partidária, como cofundador do Partido Verde e um dos mais atuantes deputados ambientalistas da história do Congresso Nacional; e na luta contra a crise do clima, com a inserção da 'precificação positiva' do carbono, que ele chamava de 'minha obsessão', no texto do Acordo de Paris".

"A morte de Alfredo Sirkis deixa o Brasil menor. Ele criou o PV e seu trabalho pela preservação do nosso meio ambiente foi fundamental", afirmou José Luiz Penna, presidente nacional do partido.
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